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    Convivendo com os nossos fantasmas - Capítulo III

    Nas últimas duas décadas, tive a oportunidade de acompanhar, já como neurocientista, a evolução de teorias que buscam elucidar as causas que levam pacientes a conviver com seus membros fantasmas. Apesar de inúmeros estudos, os mecanismos neurofisiológicos que explicam o fenômeno permanecem controversos e misteriosos – como toda história de fantasma.

    Durante a segunda metade do século XX, a explicação mais aceita era aquela defendida pelo neurocientista britânico Pattrick Wall, considerado um dos precursores da moderna neurociência da dor. Segundo Wall, alterações anatômicas e fisiológicas, resultantes tanto da proliferação desordenada de fibras nervosas na região cicatricial do coto do membro amputado (formando tumores chamados neuromas), quanto o processo de remoção de estímulos periféricos da medula seriam as principais causas do repertório de sensações táteis anormais experimentadas na síndrome do membro fantasma.

    Durante décadas, Wall e outros neurocientistas documentaram achados que apoiavam a “teoria de mecanismos periféricos”. Porém, a remoção cirúrgica dos neuromas, a secção completa dos nervos remanescentes ou mesmo a lesão das áreas da medula espinhal que teoricamente receberiam os sinais adulterados não só não produzem nenhum efeito duradouro, mas num número razoável de casos podem até levar ao agravamento da sintomatologia. Dessa forma, ao longo das últimas décadas, a teoria perdeu muito de sua credibilidade.

    Curiosamente, um dos colaboradores mais próximos de Wall nos anos 60, o psicólogo canadense Ronald Melzach, propôs uma teoria diametralmente oposta para explicar o mesmo fenômeno: “ ...o cérebro faz mais do que detectar e analisar estímulos sensoriais provenientes da periferia do corpo; gera toda a nossa experiência perceptual, mesmo quando sinais que deveriam ser gerados por uma parte do corpo deixam de existir porque essa parte foi removida. Em suma, o cérebro não precisa de um corpo para fazer-nos sentir parte dele.”

    Melzach batizou essa visão de “teoria da neuromatrix”. Essencialmente ele postulou que o cérebro contém uma vasta rede de neurônios que, além de responder normalmente a estimulos sensorias provenientes da periferia do corpo e ter sua atividade modulada por esses estímulos, provoca atividade elétrica neural contínua, indicando a identidade de nossos corpos e o seu estado natural, intacto. Segundo ele, essa neuromatriz continua a operar ininterruptamente mesmo depois da remoção de uma parte do corpo e produz atividade elétrica que nos faz sentir a presença de parte de nós mesmo quando ela não existe mais.

    Assim, segundo Melzach, a sensação de possuir um membro fantasma seria absolutamente real para um paciente amputado – e não resultado de um fluxo alterado de informação táctil ou produto de alucinação. Certamente, pacientes que se queixam de seus membros fantasmas não sofrem de nenhum distúrbio psíquico. A “assinatura neural”, que segundo Melzach faz com que o cérebro continue a produzir padrões de atividade elétrica associados com a existência de um corpo intacto, seria determinada pelo menos parcialmente pelo nosso genoma e conferiria a cada um de nós a sensação primordial do que o corpo é, sua configuração e suas fronteiras; em outra palavras, o senso de ser um indivíduo único e indissoluto.

    Para realizar tal função, a neuromatriz envolveria um grande número de vias e circuitos neurais, incluíndo os especializados em processar informação táctil, comumente conhecido como sistema neural somatosensório, bem como o sistema límbico, responsável pela geração de todas as nossas emoções.

    Ao longo das últimas duas décadas, várias previsões derivadas da teoria da neuromatriz foram confirmadas em múltiplos estudos. A tese de Melzach de que a “identidade pessoal” do corpos é determinada, pelo menos parcialmente, por mecanismos genéticos foi parcialmente comprovada pela demonstração de que mesmo indivíduos nascidos sem membros convivem com fantasmas das partes ausentes.

    Essa observação sugere que nascemos com um “modelo cerebral básico” de como o nosso corpo deveria ser. Ao longo da vida, porém, todas as mudanças que porventura ocorram nessa nossa configuração corpórea ideal são armazenadas em nossos circuitos neurais, na forma de memórias tácteis que contribuem para um processo de contínuo refinamento. É plausível especular que a sensação do membro fantasma resultaria de um conflito profundo entre a imagem corpórea (completa) e a nova configuração (reduzida) do corpo depois da amputação. O cérebro não receberia mais sinais tácteis periféricos que validassem a previsão do modelo cerebral de como o corpo deveria ser.

    Se Melzach está certo quando diz que a neuromatriz define a nossa identidade perceptual e física, decorre que qualquer lesão dos componentes dessa matriz neural deveria produzir a perda completa da sensação de que o corpo que habitamos é o nosso.

    Por mais incrível que possa parecer, tal condição clínica ocorre freqüentemente em pacientes com lesões extensas do lobo parietal direito, como consequência de traumas cerebrais ou derrames. Nesses casos, algumas dessas pessoas ficam indiferentes a todo o lado esquerdo de seus corpos, a ponto de deixarem de vestir a manga esquerda de uma camisa ou de calçar o sapato esquerdo. Quando inquiridos sobre isso, geralmente ficam nervosos e negam categoricamente que o braço ou a perna esquerda sejam verdadeiramente seus: eles crêem que todo o lado esquerdo de seus corpos pertence a outra pessoa.

    Nesses casos, conhecidos como left neglect sindrome, todo o lado esquerdo ao redor desses pacientes tende a desaparecer da consciência. Curiosamente, a síndrome de negligência corporal pode ser transiente. O melhor exemplo disso me foi contado, muitos anos atrás, por um astronauta do programa do ônibus espacial da NASA. Para desespero da tripulação, o piloto da nave em que o astronauta fazia seu primeiro vôo não conseguia entender por que algum dos seus colegas “piadistas” insistia em colocar uma mão estranha do lado esquerdo do seu corpo. Naturalmente, tratava-se da própria mão do piloto. Horas depois a crise se dissipou quando o piloto esclamou, de repente: “Podem ficar tranqüilos. Encontrei minha mão esquerda perdida no painel de controle!”

    Suporte para a tese de que é o cérebro o principal algoz daqueles que sofrem com seus membros fantasmas também foi obtido em uma série de elaborados experimentos em animais realizados nos últimos 25 anos. Iniciados pelos neurocientistas americanos Jon Kaas e Michael Merzenich, esses estudos demonstraram que a amputação de uma parte do corpo, como o dedo médio, por exemplo, deflagra um processo de reorganização funcional e anatômica. Representações cerebrais do corpo, conhecidas como mapas corpóreos (ou somatotópicos) neurais, alteram-se contínua e gradativamente após a amputação, de tal sorte que esses mapas voltam a representar regiões do corpo adjacentes ao coto. Esse processo de “reorganização plástica” permite que neurônios que antes respondiam somente à estimulação do dedo médio passem, depois de sua retirada, a responder com igual intensidade à estimulação da pele do indicador e do anelar.

    No caso de amputação mais extensa, como a de um braço todo, a plasticidade neural faz com que, passados muitos anos, neurônios que antes reagiam à estimulação tactil do membro amputado gradativamente passem a responder à estimulação da face e de territórios adjacentes ao coto.

    A proposição que redes neurais distribuídas pelo cérebro causam a ilusão da presença de um membro fantasma também foi validada, há alguns anos, pelos experimentos engenhosos do neurologista V.S. Ramachandran. Depois de selecionar uma série de pacientes que haviam perdido um dos antebraços e apresentavam membros fantasmas dolorosos e paralisados em posições extremamente desconfortáveis, o pesquisador construiu um artefato que causava ilusões visuais usadas para “tratar” esses casos incuráveis. O equipamento nada mais era do que uma grande caixa de madeira que permitia ao paciente inserir ambos os braços (o real e o fantasma), através de dois orifícios em uma das laterais. No interior dessa caixa, espelhos refletiam a imagem do antebraço real no interior da caixa onde o paciente esperava encontrar o membro amputado contorcido e paralisado. Depois de assumir uma posição estável, o paciente era instruído a olhar para dentro da caixa, através de uma abertura de vidro. Dessa forma, podia agora ver dois antebraços aparentemente normais; um real, e o outro, superimposto ao seu coto, formado pela imagem refletida do braço real.

    Após alguns minutos observando essa cena, que nada mais era do que uma ilusão visual, as pessoas eram instruídas a mexer o braço real. Tais movimentos, evidentemente, geravam a ilusão que ambos os braços podiam agora se movimentar. Para espanto de todos envolvidos no estudo, alguns minutos desse simples exercício fizeram com que o membro fantasma começasse a “se mexer”.

    Mais chocante talvez tenha sido a descoberta de que, em alguns casos, a prática diária desse simples exercício ilusionista permitia, a alguns pacientes, não só eliminar a dor, mas também os ajudava a sepultar os fantasmas! Nesses casos, a ilusão visual foi capaz de modular a ilusão táctil, sugerindo que a atividade de circuitos visuais centrais é capaz de alterar a atividade da suposta neuromatriz responsável pela elaboração do modelo corpóreo cerebral. Moral da história: para o nosso cérebro de primata o que se vê vale mais do que aquilo que se sente!

    Depois de quase 25 anos estudando mistérios neurais, como os que levam seres humanos perfeitamente normais a conviverem, anos a fio, com assombrações geradas dentro de suas próprias mentes, às vezes fico imaginando o que Dona Ada pensaria de tudo isso?

    De minha parte, se de alguma forma eu pudesse retornar quarenta anos no tempo, de volta para a mesma sala de estar do bairro de Moema, depois de ter visto tudo que eu vi nesse último quarto de século, eu certamente teria uma outra resposta a pergunta que ela me fazia, quase todas as noites, sempre com o mesmo tom de alarme.

    - E você, Miguel, não acredita mesmo em fantasma?

    Ao invés de debochar da pergunta, com o costumeiro olhar de desdém, dessa vez, eu responderia sem hesitar: “Dona Ada, em fantasma eu não acredito, mas que eles existem, ah, eles existem.”

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