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    Convivendo com os nossos fantasmas – Capítulo II

    A experiência de conviver com um membro fantasma nunca é prazerosa. Na realidade, mais de 70% dos pacientes que vivem essa ilusão sofrem de algum tipo de dor na primeira semana depois da amputação. Quase 65% das pessoas ainda experimentam dores seis meses depois da remoção cirúrgica do membro. Pior: quase 60% relatam sentir algum tipo de dor até dois anos depois da perda do membro. Uma fração ínfima dos pacientes que sofrem dores em membros fantasma consegue encontrar alívio com quaisquer das mais de 50 terapias já propostas na literatura médica.

    Em muitos casos, o incômodo sentido por esses pacientes nada mais é do que a persistência do quadro de dor causado pela patologia que determinou a extirpação do membro. Esse fato foi observado em entrevistas com pacientes amputados: a dor severa no membro antes de ele ser retirado apareceu como o maior fator de risco para a ocorrência de dor fantasma após a amputação. Vítimas de fraturas graves, úlceras e queimaduras profundas ou gangrena tendem a reviver a dor que as acometeu antes da cirurgia. É como se a memória táctil dolorosa pregressa se preservasse no cérebro mesmo depois da eliminação da fonte corpórea que a gerou.

    Recentes estudos sugerem que mesmo crianças nascidas sem pernas ou braços podem sofrer com sensações fantasmas originadas em partes dos seus corpos que jamais existiram. Apesar do espanto que tais achados ainda causam, essas descrições não são novidades, quer na literatura médica, quer na mitologia ou no folclore popular: nos últimos 600 anos o fenômeno do membro fantasma foi descrito em detalhes inúmeras vezes.

    Em 1994, logo depois de inaugurar meu laboratório na Universidade Duke, na Carolina do Norte, recebi uma missão do então chefe do departamento: preparar uma aula sobre membro fantasma para professores e cientistas que participavam de uma reunião científica mensal na instituição. Claramente, era o meu primeiro grande teste como mais novo professor ali. Dada a responsabilidade da tarefa, durante um mês passei todas as minhas tardes escondido no porão da biblioteca central da universidade, consultando livros empoeirados e esquecidos. Foi nesses que, maravilhado, aos poucos descobri a longa série de relatos, coletados por vários autores dedicados a reconstruir a história desse fenômeno assombroso.

    Foi graças à dedicação desses autores quase anônimos que aprendi, por exemplo, que durante a Idade Média, uma série de contos folclóricos europeus glorificava a restauração “mágica” ou “milagrosa” da sensação de membros amputados em soldados que retornavam de campos de batalha. Um dos mais detalhados relatos desse fenômeno, datado do século IV, trata das repetidas e “miraculosas curas” efetuadas por dois irmãos gêmeos no porto de Aegea, na então província romana da Síria. Segundo as narrativas, posteriormente compiladas pela Igreja Católica no processo de canonização de são Cosme e são Damião, eles eram capazes de transplantar membros de mortos para pacientes que haviam perdido braços ou pernas. De acordo com a versão oficial da Igreja, os pacientes passavam a sentir novamente a presença divina de partes perdidas de seus corpos. Depois da morte dos gêmeos, os fiéis que fervorosamente clamassem por eles receberiam o restabelecimento da sensação de possuir parte de si que não tinham mais. Uma ilustração clássica, datada do século XV, que retrata o trabalho dos irmãos pode ser vista no museu Wurttemberg, em Stuttgart, Alemanha.

    Tudo leva a crer que os “agraciados” pelos milagres nada mais receberam por suas preces do que a vã ilusão de que membros fantasmas eram dádivas vindas do céu, como prenúncio da eminente restauração de seus corpos mutilados. Diga-se de passagem que a concretização dessa última etapa nunca foi documentada, nem mesmo pela Igreja.

    Foi dos campos de batalha medievais europeus que surgiram inúmeros e detalhados relatos clínicos do fenômeno do membro fantasma. O primeiro deles está no clássico tratado sobre tratamentos de soldados, escrito pelo famoso cirurgião militar Ambroise Pare. Curiosamente, o médico francês publicou esse estudo em seu idioma materno, algo totalmente inusitado numa época em que relatos científicos utilizavam o latim clássico como linguagem oficial. Provavelmente, Paré se sentiu um tanto preocupado com a possibilidade que seus colegas duvidassem da sua sanidade mental. Apesar de preservar sua reputação, ele não alcançou o intuito de divulgar seus achados, uma vez que seu trabalho permaneceu praticamente ignorado por mais de 300 anos.

    Uma das primeiras teses de doutorado versando sobre o tema, Dolorem Membri Amputati Remanentem, foi apresentada em 1798 pelo médico alemão Aaron Lemos que escreveu:

    “...a alma desses pobres pacientes nao pode se livrar imediatamente da velha e coordenada representação de dois membros similares, pois antes disso, tem que se acostumar gradualmente com a perda de um deles..”

    O naturalista Erasmus Darwin, avô de Charles Darwin, também devotou vários parágrafos em seus escritos ao intrigante fenômeno. Numa dessas passagens ele indagou: “Não parece claro que esse fenômeno indica que nossas idéias e sensações emergem de nossos cérebros e não de nossos órgãos do tato?..”

    Talvez o caso mais célebre de membro fantasma seja o relatado pela própria vítima, o legendário almirante inglês Horatio Nelson. Antes de virar uma lenda viva dos mares, em sua primeira missão como comandante de uma grande armada britânica, durante a Batalha de Tenerife, em 1797, Nelson foi alvejado no convés do seu navio por uma bala de canhão que lhe estraçalhou o cotovelo direito e causou a perda do braço.

    Anos depois, na véspera da Batalha de Trafalgar, ao escrever uma carta endereçada à rainha da Inglaterra, Nelson previu a vitória da armada britânica sobre as forças francesas e espanholas baseado, segundo ele, na sensação de ainda poder sentir na mão direita, amputada anos atrás, a empunhadura da espada com que jurou defender a coroa inglesa.

    Coincidência ou não, na manhã seguinte, Lord Nelson armado com sua espada fantasma (e mais 2 mil canhões, diga-se de passagem) aniquilou a armada de Napoleão.

    De todas as definições publicadas na literatura, a que mais me impressionou desde os meus tempos de estudante de medicina, foi a proposta por Frederiks, em 1963: “...Cada [membro] fantasma é uma percepção composta da sensação do membro fantasma propriamente dito e uma série de sensações associadas. Por membro fantasma nós entendemos a sensação que o membro fisicamente ausente continua vividamente presente. Essa sensação inclui todas as propriedades experimentadas pelo paciente quando o membro real ainda era presente. Sob a expressão, sensações de um membro fantasma, geralmente encontram-se agrupadas todas as outras sensações táteis [normais ou anormais] localizadas no membro fantasma, que podem ou não ser sentidas, tanto antes como depois da amputação. Essas sensações incluem parestesias, dores, sensações térmicas desagradáveis de calor ou frio intenso...”

    Para conhecer as teorias modernas sobre o membro fantasma leiam o próximo capítulo a ser publicado no NeuroLog.

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