Atualizado em -
Convivendo com os nossos fantasmas
Desde o início da minha carreira de neurocientista, eu sempre tive um fascínio particular por um dos fenômenos neurológicos mais debatidos ao longo da história da humanidade. Conhecido como “membro fantasma”, esse fenômeno refere-se ao fato de que um grande número dos pacientes que perdem uma parte do corpo (um dedo, uma perna, um braço etc.), quer como resultado de uma amputação acidental, quer por um procedimento cirúrgico eletivo, continuam a sentir toda uma série de sensações tácteis, inclusive dor, emanando dessa parte de si mesmos que não existe mais. Essa sensação absolutamente real pode desaparecer alguns meses após a perda do membro ou permanecer por toda a vida com o paciente.
Alguns meses atrás eu tive o prazer de escrever um artigo de revisão sobre esse assunto que foi publicado recentemente na revista “Viver Mente & Cérebro”. Como se trata de um artigo longo, eu resolvi dividir o artigo original em vários capítulos e postá-los aqui no NeuroLog nos próximos dias.
Abaixo, o primeiro capítulo.
Capítulo I – Encontrando um fantasma
Nos tempos em que moleque amarrava cachorro com lingüiça e a Academia alviverde, comandada por Dudu e Ademir da Guia, era a única capaz de parar o Santos de Coutinho e Pelé, criancinha ainda tinha medo de fantasma. E as que não tinham logo aprendiam a ter.
Digo isso por experiência pessoal. Afinal, incutir o pavor irracional por uma pobre e anônima assombração, ou por qualquer alma penada de plantão, fazia parte das refinadas técnicas pedagógicas empregadas pela minha bisavó, Dona Ada, em suas vãs tentativas de me convencer que melhor seria ir dormir no meu quarto do que ficar na sala assistindo à televisão, madrugada adentro.
Curiosamente, os fantasmas de Dona Ada sempre marcavam hora para aparecer. Aparentemente, todas as noites só recebiam permissão de assombrar o bairro de Moema, zona sul de São Paulo, depois do último telejornal, minutos antes da sessão Coruja (em branco e preto) começar. Eu, que de fantasma só conhecia o Gasparzinho, não conseguia entender essa lógica.
Mas minha bisavó concluíra que eu ficaria mais seguro, refugiando-me num quarto escuro do segundo andar de um sobrado, onde, abandonado pela minha fiel cachorra, Mami, eu teria que lidar, “mano a mano”, com todo e qualquer fantasma de segundo escalão que despencasse no meu pedaço.
Segundo não, terceiro escalão no máximo. Afinal de contas, pensava eu, que fantasma de nome e posição perderia seu tempo assombrando a segunda casa de uma vila na pacata cidade de Tatuí? Evidentemente, nenhuma alma penada de relevância se presdisporia a tal empreitada.
Dona Ada não concebia que passar a madrugada escoltado por minha fiel guardiã canina, debaixo do cobertor (que guardo até hoje, só por precaução), tomando guaraná e comendo pão de minuto, na frente da televisão cheia de gente gritando, constitutía defesa muito mais intransponível contra qualquer eventual perigo vindo do além. A bem da verdade, muitas foram as noites que esperei ansioso pela visita de algum fantasma perdido.
Os anos foram passando e os fantasmas de Dona Ada, provavelmente cada vez mais ocupados com gente mais importante do que eu, foram aos poucos deixando de fazer parte do meu cotidiano de notívago. Certamente, a fidelidade à sessão da madrugada da TV me protegeu.
Muitos anos se passaram sem que eu ouvisse referências a fantasmas ou perdesse noites de sono pensando neles. Porém, no quarto ano do meu curso de medicina, algo inusitado aconteceu. Uma manhã, casualmente, um cirurgião vascular do Hospital das Clínicas me propôs fazer uma visita à enfermaria do departamento de ortopedia. Usualmente, eu teria recusado polidamente. Naquela época eu preferia me refugiar no laboratório de pesquisas em que começara a trabalhar havia alguns meses, ou simplesmente ler meus livros de medicina à beira da piscina do clube dos alunos. Todavia, não era um evento qualquer.
“Hoje, nós vamos conversar com um fantasma”, disse o médico.
Totalmente seduzido pela oportunidade de realizar aquele que secretamente tinha sido um dos sonhos dourados da minha infância, aceitei o convite na hora. O cirurgião me alertou: “Não se assuste com o que vai ouvir e ver. Procure manter a tranqüilidade. O paciente ainda não se conforma com o que aconteceu e está muito abalado. Não é para menos. O primeiro encontro com esse tipo de sintoma é de tirar qualquer um do prumo.“
O paciente era um menino de uns 12 anos. Tinha cabelos loiros cacheados e tímidos olhos azuis esfumaçados. Ele logo se deu conta da nossa chegada e não disfarçou uma expressão de terror que eu jamais havia testemunhado – nem mesmo num hospital-escola cheio de almas penadas como o HC. Gotas de suor empapavam seu rosto. O corpo da criança, que eu agora via bem de perto, parecia padecer de uma dor terrível, uma tortura insuportável, tão injusta quanto inexplicável.
Pela primeira vez em minha vida de estudante de medicina senti um nó na garganta, lentamente me esganando. “Dói muito doutor, queima, parece que alguma coisa está esmagando a minha perna”, repetia. Esqueci o protocolo que segundos atrás eu havia prometido manter e o desespero do menino foi tomando conta de mim. “Onde dói? Diga, que nós ajudamos a acabar com essa dor”, perguntei, sem esperar pelas instruções do meu experiente amigo. “No pé esquerdo, na batata da perna, na perna toda, abaixo do joelho!“ Sem entender por que ninguém fazia nada para interromper a dor que atormentava a criança, quase sem conseguir mais respirar, lágrimas nos olhos embaçando meu discernimento e compostura profissional, comecei inconscientemente, sem nem ao menos perdir permissão, a tomar minhas próprias providências. Levantando o lençol que cobria o menino em prantos, iniciei uma tentativa de examiná-lo, ou talvez apenas confortar – a ele ou a mim, já não me recordo mais.
Só lembro que nada poderia ter me preparado para o que eu vi! Algo que chocou meus olhos e paralisou meu cérebro. Bastou um breve olhar atônito para que eu percebesse que, no corpo molhado de suor e dor, faltava metade da perna esquerda, amputada justamente abaixo do joelho, em conseqüência de um atropelamento dias antes. Mesmo que tudo aquilo fosse incomprensível para mim, não havia dúvida que, para aquela criança, a fonte de seu desconforto se originava em uma parte de seu corpo que não existia mais.
De certa forma, era como se essa perda inesperada tivesse libertado um fantasma que vivia, até então, silenciosamente, à espreita de um dia poder revelar-se, para assombrar seu mestre com todo o seu mistério, escárnio e dor.
Já fora da enfermaria, lembro do cirurgião me dizendo: “Não era ele falando, era o seu membro fantasma“.
Como a grande maioria das vítimas de amputações traumáticas ou eletivas, o paciente padecia de um fenômeno que desafia médicos e cientistas há séculos. Conhecida pela alcunha de “membro fantasma”, um termo criado pelo neurologista americano Weir Mitchell para descrever sintomas de soldados mutilados durante a Guerra Civil Americana, a impressão da contínua presença de uma parte do corpo que não existe mais, acompanhada ou não de dor, não se limita a braços e pernas. Na literatura médica existem relatos dessas sensações em pacientes que sofreram a perda de seios, dentes, genitais e mesmo órgãos internos. Dores menstruais ou contrações semelhantes ao trabalho de parto, por exemplo, foram descritas em mulheres que sofreram remoção completa do útero. Há ainda o caso de um paciente que, durante intermitentes episódios de angina cardíaca, queixava-se da irradiação da dor para o braço esquerdo, amputado anos atrás.
Mas como é sentir a presença de um membro fantasma? A sensação mais mencionada por pacientes é a de “formigamento difuso”, que “reconstrói” toda a extensão do membro amputado. O grau de detalhe anatômico experimentado pelo paciente só pode ser definido como uma macabra e cruel memória táctil, que por ser tão detalhada e persistente confunde e aterroriza continuamente sua vítima.
Normalmente, uma impressão táctil semelhante à experimentada por esses pacientes pode ser simulada durante episódios de isquemia temporária. Tal estado transiente pode surgir, por exemplo, alguns minutos após ficarmos em posição incômoda. Se sentarmos sobre uma das pernas até que ela “adormeça”, ou usamos um manguito de pressão para bloquear o fluxo sangüíneo do antebraço por alguns segundos, a sensação de formigamento extremo e desconforto agudo que experimentamos logo depois de mudarmos de postura (ou após a remoção do manguito) é muito semelhante à experimentada por pacientes amputados. A principal diferença, entretanto, é que enquanto no primeiro caso o desconforto desaparece em alguns minutos, em pacientes tomados pela dor do membro fantasma essa sensação pode permanecer ativa por anos.
Além desse formigamento, pacientes freqüentemente relatam movimentos complexos, bem como a gradual mudança de forma de seus membros fantasmas. Não raramente, enfermeiros e médicos são acordados no meio da noite por pacientes amputados ou com lesões da medula espinhal que alegam, aos gritos, que suas pernas inexistentes ou paralisadas estão “tentando sair da cama por si próprias para caminhar ao redor do quarto”.
Mais desafortunados, um terço dessas pessoas relatam que seus membros invisíveis permanecem continuamente paralisados, geralmente em condições inusitadas (“imerso num cubo de gelo”, ou “envolto num bloco de concreto”), ou em posições nunca experimentadas na vida real. Braços invisíveis retorcidos em espiral, ou flexionados atrás das costas, continuamente doloridos, levam muitos desses pacientes ao desespero. Para se ter uma idéia da aflição causada por tais condições, basta tentar assumir uma dessas posturas (por exemplo, contorcer o braço e mantê-lo trás do pescoço). Passados alguns instantes, o incômodo nos obriga a abandonar tal postura. Novamente, a diferença entre qualquer um de nós e os pacientes que sofrem com membros fantasmas é a impossibilidade desses últimos de alterar a posição torturante.
Com o tempo, para maioria dos pacientes, o membro fantasma diminui de tamanho, um fenômeno denominado telescopia. É comum a existência de sensações adicionais – como a presença de um anel, sapato, ou mesmo de uma antiga proteção de gesso, usada pelo paciente para se recuperar de uma fratura.
A experiência de conviver com um membro fantasma nunca é prazerosa. Na realidade, mais de 70% dos pacientes que vivem essa ilusão sofrem de algum tipo de dor na primeira semana depois da amputação. Quase 65% das pessoas ainda experimentam dores seis meses depois da remoção cirúrgica do membro. Pior: quase 60% relatam sentir algum tipo de dor até dois anos depois da perda do membro. Uma fração ínfima dos pacientes que sofrem dores-fantasma consegue encontrar alívio com quaisquer das mais de 50 terapias já propostas na literatura médica.
Em muitos casos, o incômodo sentido por esses pacientes nada mais é do que a persistência do quadro de dor causado pela patologia que determinou a extirpação do membro. Esse fato foi observado em entrevistas com pacientes amputados: a dor severa no membro antes de ele ser retirado apareceu como o maior fator de risco para a ocorrência de dor fantasma após a amputação. Vítimas de fraturas graves, úlceras e queimaduras profundas ou gangrena tendem a reviver a dor que as acometeu antes da cirurgia. É como se a memória táctil dolorosa pregressa se preservasse no cérebro mesmo depois da eliminação da fonte corpórea que a gerou.
Recentes estudos sugerem que mesmo crianças nascidas sem pernas ou braços podem sofrer com sensações fantasmas originadas em partes dos seus corpos que jamais existiram. Apesar do espanto que tais achados ainda causam, essas descrições não são novidade, quer na literatura médica, quer na mitologia ou no folclore popular: nos últimos 600 anos o fenômeno do membro fantasma foi descrito em detalhes inúmeras vezes.
Para conhecer um pouco mais a história desse fenômeno, aguarde o próximo capítulo a ser postado aqui no NeuroLog.