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    O golaço de placa de Gana

    A maioria dos brasileiros deve saber que, na semana passada, a seleção brasileira de futebol ganhou de Gana de 1 a 0. Fora o fato de que o mando de campo brasileiro foi exercitado em Estocolmo, capital da Suécia (por acaso a CBF mudou pra Europa?), nada relacionado a essa partida causou muita surpresa.

    Aqueles que viram o jogo (eu não tive o prazer) reclamaram que não houve nada de espetacular nos 90 minutos regulamentares.

    Lendo as notícias sobre o prélio, eu descobri que o time brasileiro triunfou graças a um golzinho sofrido, cortesia do oportunismo de Wágner Love, aquele que foi formado nas categorias de base do PRIMEIRO time campeão mundial interclubes.

    De acordo com as mesmas reportagens, Gana não conseguiu marcar nem um golzinho sequer.

    Conhecedor de detalhes não divulgados pela imprensa brasileira e internacional, o NeuroLog se sente no dever de vir ao público para corrigir essa informação e relatar uma outra história sobre um “Gol de Gana” que aparentemente ninguém, a não ser a nossa redação, testemunhou, em cores e ao vivo!

    Na realidade, sem que ninguém notasse, na semana passada Gana marcou um golaço de placa que certamente vai entrar pra história dessa emergente potência do futebol africano.

    O nome do ganês artilheiro que marcou esse golaço é Kafui Dzirasa (pronuncia-se “Jirassa”). Dr. Dzirasa, quero dizer, pois desde a semana passada Kafui se transformou no primeiro estudante de origem africana a receber um doutorado em neurociência da Universidade Duke.

    Tudo isso, em três anos e meio, religiosamente contados do primeiro dia de aula ao dia da defesa da tese, na quarta-feira passada.

    A história de vida desse ganês é emblemática por uma série de razões. Ela também é cheia de “gols inesquecíveis” que podem servir de exemplo para muitos jovens, tanto aqui como no Brasil, que ainda padecem sobre a opressão quase intransponível do racismo e da não menos danosa impenetrabilidade e falta de acesso ao ensino superior.

    Pois Kafui não é só o exemplo vivo do tipo de talento humano que existe pelo mundo afora, esperando apenas uma chance para florescer. Kafui é a prova de que, em se criando oportunidades e canais apropriados de acesso à educação e ao conhecimento, basta deixar o resto por conta do talento e da energia emprendedora do ser humano.

    O caminho percorrido por Kafui ilustra essa tese.

    Seus pais nasceram e cresceram na periferia de Acra, a capital de Gana. Em 1971, o pai de Kafui foi aceito como aluno do departamento de Engenharia Civil do MIT em Boston e emigrou para os Estados Unidos para estudar. A mãe de Kafui, depois de completar a faculdade de enfermagem na Inglaterra, também emigrou para Boston, onde Kafui nasceu em 1978.

    Depois de mudar para Washington, onde completou seus estudos numa escola pública, a Springbrook High School, em 1996, Kafui recebeu uma bolsa de estudos focada no incentivo de talentos afro-americanos (Bolsa Meyerhoff), que lhe permitiu cursar a Universidade do Condado de Maryland-Baltimore (UMBC).

    Durante o curso universitário, matriculado na disciplina de Engenharia Química, Kafui participou de vários programas de iniciação científica, incluindo projetos mantidos pela Fundação Fogarty Internacional e pela empresa Mobil Technology. Graças ao seu desempenho acadêmico estelar, Kafui entrou na lista dos melhores alunos universitários dos EUA. Nesse mesmo ano, Kafui ganhou o campeonato de salto em distância da Conferência Nordeste Americana. Nenhum outro aluno jamais havia conseguido distinções academicas e esportivas tão expressivas em toda a estória da UMBC até a chegada desse ganês de Boston.

    Kafui ainda foi eleito presidente do Grêmio Acadêmico e se graduou com a maior distinção acadêmica da UMBC, a cobiçada "magna cum laude”, oferecida pelas universidades americanas aos seus melhores alunos.

    Em 2001, Kafui foi aceito como aluno do programa MD/PhD da Universidade Duke, que permite aos poucos admitidos obter um doutorado e o título de médico simultaneamente.

    Três anos e meio atrás, Kafui apareceu no meu escritorio na Duke. Depois de dez minutos de conversa eu percebi que diante de mim estava um ser humano como poucos que a gente encontra na vida inteira.

    Kafui tinha uma missão em mente: criar uma nova abordagem para o estudo de modelos animais de doencas psiquiátricas e neurológicas. Curiosamente, naquele momento o nosso laboratório se preparava para começar a estudar as bases neurofisiológicas do comportamento de um novo tipo de camundongo transgênico, criado pelo laboratório do neurocientista Marc Caron, nosso colega aqui na Universidade Duke.

    Nesse camundongo, conhecido pelo acronismo DAT-KO (Dopamine Transport Knockout), uma manipulação genética impede a produção de uma proteína responsável pelo reabsorção (ou transporte) do neurotransmissor dopamina do espaço fora das células de volta para o terminal pré-sináptico dos neurônios dopaminérgicos, que existem em diferentes regiões do cérebro.

    Como conseqüência dessa manipulação, o cérebro desses camundongos possui uma concentração extracelular de dopamina altíssima e muito pouca dopamina dentro dos neurônios, quando comparados com camundongos normais. Essa hiperdopaminergia extracelular é responsável por uma série de comportamentos anormais manifestados pelos camundongos DAT-KO.

    É bem sabido que a dopamina é um neurotransmissor envolvido em uma série de funções fundamentais do cérebro humano, como a mediação de sensações de prazer, paixão, antecipação de uma provável recompensa e controle dos movimentos (veja as colunas “Neurobiologia da Paixão” e “Neurobiologia do Chocolate” aqui no arquivo do NeuroLog para maiores informações).

    O que ninguém sabia é que a dopamina também desempenha um papel fundamental na geração do sono REM, o período do ciclo de sono onde a gente sonha e produz movimentos rápidos dos olhos (“rapid eye movements” - REM, daí o acrônimo REM para caracterizar essa fase do sono).

    Ninguém sabia até Kafui começar a publicar os seus resultados no ano passado.

    Num artigo publicado no Jornal of Neuroscience (http://www.jneurosci.org), e que serviu como base para a sua tese, Kafui demonstrou como a dopamina, provavelmente agindo por um receptor específico (chamado D2), é necessária para a geração de episódios de sono REM.

    Kafui chegou a essa conclusão através de uma série de experimentos que envolveram a combinação, num mesmo grupo de animais, de técnicas de manipulação genética, métodos eletrofisiológicas (registro da atividade elétrica do cérebro), manipulação farmacológica e estudo comportamental.

    Por exemplo, usando uma manipulação farmacológica, que inibiu a síntese de dopamina nos neurônios desses camundongos, Kafui conseguiu produzir uma depleção (eliminação) quase completa desse transmissor. O resultado foi a criação, em alguns minutos, de animais que exibiam todos os sintomas motores de um paciente sofrendo de um quadro avançado do mal de Parkinson. Depois dessa manipulação, esses camundongos permaneciam imóveis, sem conseguir iniciar qualquer movimento, tal qual um paciente parkinsoniano não tratado ou quando a medicação não surte mais efeito.

    Através da análise da atividade elétrica do cérebro desses animais, Kafui descobriu que esses camundongos, além do quadro motor, também não conseguiam dormir ou entrar em sono REM.

    Quando Kafui administrou a esses animais o medicamento (L-dopa) tipicamente usado para tratar pacientes com doença de Parkinson, a primeira coisa que ocorreu, antes mesmo da melhora dos sintomas motores, foi que os animais conseguiram voltar a dormir e entrar na fase de sono REM. Durante esse período, eles puderam voltar a ter os seus sonhos tácteis (roedores provavelmente têm sonhos tácteis e não visuais como nós primatas).

    Uma nova série de estudos revelou que esse efeito da L-dopa depende da ativação de uma classe específica de receptores da dopamina, os chamados receptores D2.

    Curiosamente, os mesmos camundongos DAT-KO, quando colocados num novo ambiente (por exemplo, uma nova gaiola), o qual eles jamais tinham freqüentado, apresentavam um quadro de hiperatividade impressionante. Esse quadro clínico podia ser revertido quandos os camundongos recebiam uma droga antipsicótica, haloperidol, que bloqueava a ação da dopamina no já mencionado receptor D2.

    Essa resposta tão específica gerou a suspeita que a hiperatividade demonstrada por esses camundongos tivesse algum tipo de semelhança com um quadro psicótico observado em diferentes tipos de distúrbios psiquiátricos.

    Quando Kafui analisou a atividade elétrica desses camundongos, durante os episódios de hiperatividade motora num novo ambiente, ele fez uma descoberta impressionante. Para todos os efeitos, durante esses momentos, Kafui demonstrou que a atividade elétrica produzida pelo cérebro desses camundongos hiperativos era indistinguível daquela produzida durante a fase de sono REM em camundongos normais.

    Em outras palavras, os períodos de hipermotilidade exacerbada desses camundongos coincidiam com a produção de atividade elétrica neural observada durante a fase REM do sono, aquela na qual os sonhos são produzidos.

    Embora outros estudos sejam necessários para confirmar definitivamente essa hipótese, os estudos de Kafui sugerem que a hipermotilidade desses camundongos DAT-KO reflete a intrusão da atividade onírica (sonhos) durante a fase de vigília desses animais. Em outras palavras, nossos roedores transgênicos poderiam estar “sonhando acordados”.

    Caso essa interpretação seja validada por outros experimentos, a descoberta de Kafui suportaria a clássica hipótese, levantada originalmente por vários pioneiros da psiquiatria (Freud inclusive), de que boa parte dos delírios e alucinações, experimentados durante uma crise psicótica, nada mais seria do que a intromissão, na vida real e cotidiana, da atividade elétrica cerebral que media os sonhos de cada um desses pacientes.

    Quarta-feira passada, Kafui assombrou a todos os que ouviram a sua defesa de tese com a magnitude do potencial impacto desses achados.

    No dia seguinte, depois da celebração pela defesa de tese bem sucedida, Kafui teve de recusar o convite que lhe foi feito pessoalmente pelo diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental, a divisão especializada em pesquisa na área de saúde mental dos Institutos Nacionais de Saúde, a maior agência de financiamento de pesquisa biomédica do mundo (orçamento aproximado para o proximo ano bem acima dos US$ 20 bilhões), para apresentar seus achados num simpósio especial em Washington.

    Acontece que, na mesma data, Kafui embarca com seus pais para Acra.

    Kafui decidiu voltar para casa, encerrando seu exílio (termo que segundo o dicionário eletrônico Houaiss também define uma expatriação voluntária), para apresentar seu trabalho de tese numa faculdade de medicina local e continuar o trabalho iniciado por seus pais.

    Kafui e sua familia decidiram criar um instituto de pesquisa, ladeado por um hospital e uma escola para as crianças da periferia de Acra.

    Gana vai descobrir logo a magnitude do Gol de Placa que esse Dom Quixote africano acaba de marcar!

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