Pensamentos de macacos andarilhos dão volta ao mundo
Durante o II Simpósio Internacional de Neurociência de Natal foi concretizado o plano para a realização de um experimento que vai demonstrar claramente o poder de colaboração global da neurociência moderna. Usando todos os seus recursos tecnológicos, três institutos membros da recém-criada Rede Internacional de Neurociência (INN, na sigla em inglês) vão unir forças para demonstrar que o poder do pensamento pode cruzar o globo em mais ou menos um segundo e realizar proezas antes relegadas à ficção científica.
O plano a ser executado é o seguinte. Daqui a algumas semanas, no meio da primavera em Durham, Carolina do Norte, um dos macacos rhesus do Centro de Neuroengenharia da Duke University começará a caminhar numa esteira hidraúlica, cuja velocidade e inclinação são controladas automaticamente por um computador. Especialmente adaptada para esses nossos primos distantes, essa esteira permite que macacos andem usando apenas as pernas, ao invés de se valerem dos quatro membros.
Enquanto esse macaco percorre um trajeto pré-estabelecido pelo computador que controla a esteira, a atividade elétrica de aproximadamente 200 neurônios localizados em diferentes áreas do córtex motor desse primata será registrada continuamente, assim como a posição, velocidade e aceleração de todas as articulações das pernas do animal.
A foto acima ilustra a atividade elétrica de algumas das células corticais registradas enquanto um dos nossos macacos andarilhos realizava uma de suas caminhadas matinais em Durham.
Usando novos algoritmos computacionais, que fazem parte de uma nova interface cérebro-máquina criada no nosso laboratório da Duke, todos esses sinais serão enviados por uma linha de internet de altíssima velocidade e ampla banda para um supercomputador localizado no Instituto do Cérebro e da Mente (Brain and Mind Institute) da Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL), onde toda informação motora contida nos sinais elétricos cerebrais será extraída para que predições em tempo real do padrão de marcha desse macaco sejam obtidas.
Tudo isso em mais ou menos 0.5 segundo.
Uma vez que o supercomputador suíço concluir seus cálculos, os resultados serão enviados para o laboratório de robótica da empresa ATR, localizada em Kyoto, no Japão. Lá a equipe liderada pelo meu amigo Gordon Cheng, trabalhando em colaboração com outro grande chapa, Mitsuo Kwato, utilizará os comandos motores, extraídos do cérebro do macaco andarilho da Duke, já colocados em formato digital, para controlar a locomoção do mais elaborado robo humanóide já criado.
Mas o experimento não termina por aí.
Assim que o robô japonês começar a andar em Kyoto, sensores localizados nas suas pernas e tronco, bem como minúsculas câmeras que funcionam como seus dois olhos, começarão a enviar para o Centro de Neuroengenharia da Duke University sinais detalhando o terreno percorrido e a performance do robô. Esses sinais serão imediatamente transferidos para um monitor de plasma líquido de 42 polegadas, posicionado à frente do macaco andarilho, que assim poderá verificar por si mesmo como seus pensamentos motores cruzaram o mundo em um segundo para conceder um leve sopro de vida as engrenagens e circuitos de uma máquina que aspira a ser um de nós!
E ainda tem gente que duvida quando eu digo que cientista é pago pra ser criança a vida toda!