As vantagens, oportunidades e responsabilidades do mais verde dos países do planeta A divulgação da mais recente série de previsões sobre o futuro ambiental do planeta, produzida pelo Painel Intergovernamental para Mudança Climática (IPCC), combinada com opiniões expressas em vários artigos publicados na imprensa mundial nos últimos dois meses, demonstra claramente que a estratégia de desenvolvimento a ser seguida pelo Brasil nas próximas décadas passou a interessar ao mundo todo.
Razões não faltam para tal elevação do interesse global na forma como o Brasil pretende construir o seu futuro. Detentor da maior floresta tropical do planeta (equivalente a 30% do total das florestas tropicais do mundo e responsável pela produção de 20% de todo oxigênio da atmosfera), além das maiores reservas de água doce da Terra, o Brasil também é hoje, de longe, o país que mais utiliza combustíveis gerados de fontes renováveis na sua malha energética (aproximadamente 35% do total de energia consumida no país advém de recursos hidroelétricos e o uso de biomassa, como álcool de cana-de-açúcar).
Comparada com a média mundial (13.5%) e a dos Estados Unidos (4.3%), nesse momento o Brasil é considerado nos meios acadêmicos mundiais como um dos grandes “laboratórios ao ar livre” para pesquisas de fontes alternativas de energia limpa.
Sendo assim, não foi surpresa ler na edição de janeiro da Scientific American (
www.sciam.com) o descaso com que o jornalista Matthew Wald, especialista em assuntos de energia, tratou o programa americano de etanol, produzido a partir da cultura de milho.
Depois de mostrar a total inviabilidade comercial do modelo agroenergético americano, o jornalista menciona que apenas o Brasil, usando etanol derivado da cana-de-açúcar, encontrou uma forma viável para produção em larga escala de álcool como combustível alternativo.
Ainda segundo esse jornalista, os EUA não dispõem do clima adequado, de terras, de mão de obra barata e nem de uma rede eficiente de distribuição de etanol que pudesse fazer frente à indústria açucareira brasileira.
Além disso, diferentemente da produção de álcool de cana, a produção de álcool de milho reduz apenas minimamente a geração de gases que contribuem para o efeito estufa, sem falar num ganho energético (energia produzia dividida pela energia gasta pra produzir) pífio de apenas 10% (contra um ganho energético de 370% obtido na produção de etanol de cana).
Segundo Wald, a única forma dos EUA retomarem a liderança do Brasil nessa área é através de investimentos maciços na pesquisa de novas tecnologias para o uso de celulose como matéria prima para produção de etanol.
Curiosamente, na sua edição de Janeiro, a revista “The Atlantic” (
www.theatlantic.com) conta que Craig Venter (o ex-presidente da já falida Celera, a companhia responsável pela maior iniciativa privada de leitura do genoma humano) reuniu os seus últimos 100 milhões de dólares, mais a ajuda de alguns investidores, para criar um minicampus em Washington.
Seu objetivo principal: criar um novo organismo, através de modernas técnicas de engenharia genética, que seja capaz de degradar celulose em etanol de maneira eficiente e economicamente viável.
Ao mesmo tempo, pipocam em vários jornais americanos e europeus artigos sobre o crescimento do agronegócio brasileiro, que ameaça cada vez mais as altamente subsidiadas atividades agrícolas dos EUA e da comunidade européia.
Como potência agrícola emergente, o “Brasil verde” vai desempenhar cada vez mais um papel central na equação mundial de produção de alimentos.
Mas a que preço?
A reportagem de capa da edição de janeiro da National Geographic (
www.nationalgeographic.com) nos dá uma idéia. Com o título “Amazon, Forest to Farms” (Amazônia, de floresta a fazendas), o artigo do jornalista Scott Wallace documenta a tragédia ambiental que a expansão indiscriminada do grande agronegócio brasileiro esta causando à nossa floresta tropical. Segundo estimativas mencionadas pelo autor, uma área equivalente a 20% da floresta amazônica foi removida nos últimos 40 anos. Outros 20% podem desaparecer nas próximas duas décadas.
Num artigo muito rico em denuncias e pouco profundo em análise, o jornalista americano omite a pressão devastadora desempenhada pelos subsídios agrícolas dos EUA e da comunidade européia (quase US$ 200 bilhões por ano somente nos EUA) sobre os países em desenvolvimento, que, como o Brasil, sobrevivem às custas de exportações de grãos, como a soja.
Além disso, Scott Wallace só relata superficialmente o papel central desempenhado por grandes empresas agrícolas multinacionais, como a americana Cargill, na destruição da floresta que mais contribui para a remoção de CO2 da atmosfera.
O que fazer? Pode um país como Brasil, que precisa desesperadamente crescer para pagar o seu vergonhoso déficit social, balancear sua estratégia de desenvolvimento com a preservação e proteção do seu patrimônio natural?
O mundo todo parece estar esperando ansioso a resposta da sociedade brasileira e de seus governantes.