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    Presente de Natal

    Quatro anos atrás, numa final de outubro marcada tanto pela interminável ressaca da vitória da seleção na Copa do Mundo quanto pela expectativa do resultado do segundo turno das eleições presidenciais, um grupo de neurocientistas brasileiros, radicado no exterior há muitos anos, decidiu que o sinal pelo qual eles ansiavam desde o momento da partida havia finalmente chegado.

    Depois de muitos anos viajando por terras distantes, aprendendo a arte de fazer ciência, chegara o momento de iniciar a viagem de volta a nossa “Ítaca tropical”.

    Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

    Enfim, era hora de retornar ao Brasil!

    Mas como retraçar os passos de volta, depois de haver deixado nossa terra, bem como tudo e todos que nos eram tão caros, para perseguir nossos sonhos abstratos de cientista, onde quer que eles nos levassem, e talvez mais importante, onde quer que eles pudessem se tornar realidade?

    A nossa dívida era grande. Como ressarci-la?

    A resposta a essa dúvida excruciante surgiu naquele outubro histórico.

    A nossa dívida de amor, saudade e fidelidade seria paga com uma simples oferenda.

    Um presente de Natal.

    Ao conceder-nos o privilégio de estudar, aprender a sonhar e depois partir e conhecer os lugares do mundo onde tais sonhos podem se tornar realidade, a sociedade brasileira que subsidiou os nossos estudos deu-nos a oportunidade de adquirir a necessária experiência e credibilidade para um dia retornar e retribuir essa maravilhosa viagem.

    A nossa intenção era exatamente essa. Retornar e construir no Brasil um projeto científico jamais visto deste lado do Equador.

    As premissas desse projeto eram tão claras quanto inéditas: estabelecer um instituto internacional de pesquisa de ponta em neurociência que não só se dedicasse a investigar a fronteira dessa área da biomedicina mas também a desenvolver um arcabouço de iniciativas que tivesse como missão o desenvolvimento social e econômico da comunidade ao seu redor.

    Ciência como agente de transformação social.

    Esse foi o lema escolhido para ungir a criação do projeto do Instituto Internacional de Neurociência de Natal que concentraria suas atividades no “Campus do Cérebro” a ser construído na pequena cidade de Macaíba, localizada na periferia da cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte.

    Mas por que Natal? Porque dentro da nossa filosofia era fundamental que essa nova forma de fazer ciência contribuísse para a descentralização da produção científica por todo o Brasil, inclusive em áreas que historicamente nunca foram consideradas como prioritárias para o investimento em ciência e tecnologia. Mais ainda, era essencial que tal projeto pudesse contribuir para a melhoria das condições de vida de uma comunidade carente de investimentos básicos em educação, saúde pública e lazer.

    Para gerir o projeto do IINN, em 2004 foi criada a Associação Alberto Santos-Dumont para Apoio à Pesquisa. Nesse mesmo ano foi realizado o I Simpósio Internacional de Neurociência de Natal, que trouxe ao território potiguar neurocientistas de todo o mundo para conhecer o nosso sonho de fazer com que futuras gerações de cientistas brasileiros não precisem realizar seus vôos sob os céus de Paris e sim sob a luz do Cruzeiro do Sul.

    Nesses longos quatro anos foram muitos os que se juntaram a essa causa por todo o mundo.

    Muitos também, aqui no patropi, duvidaram desse nosso desejo de retornar e construir algo longe dos grandes centros de pesquisa do país.

    Tudo isso faz parte dessa maravilhosa viagem, aquela que algum dia vai nos trazer definitivamente de volta a Ítaca.

    Na última sexta-feira o Ministro da Ciência e Tecnologia, Dr. Sérgio Rezende, veio a Natal conhecer o IINN. As fotos abaixo mostram parte do que ele viu. Nos nossos dois primeiros prédios, laboratórios de pesquisa convivem lado a lado com as atividades do primeiro programa do IINN voltado ao atendimento de crianças natalenses.

    Brasileiros do Pará, de Brasília, de São Paulo, do Rio de Janeiro, da Bahia, do Paraná, de Minas Gerais, do Ceará e do Piauí já deixaram tudo pra trás para participar desse sonho.

    Aparentemente, todos os caminhos levam a Natal.

    Em Macaíba, as construções do Centro de Saúde, Centro de Pesquisa e o Centro Educacional Comunitário continuam, com data marcada para inauguração: 23 de Fevereiro de 2007, durante a abertura do II Simpósio Internacional de Neurociência de Natal.

    Levou quatro anos, mas o presente de Natal já está sendo carinhosamente embrulhado em papel colorido e fita de cetim.

    Agora só falta entregá-lo, abrir o pacote e curtir a reação do presenteado numa festa com guaraná e brigadeiro.

    Como é bom voltar pra casa.

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