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    A Neurobiologia do Chocolate

    Certamente, não era bem assim que meu grande amigo e companheiro de aventuras neurocientíficas, professor Sidney Arthur Simon, imaginava começar seu dia de trabalho às margens do lago Leman, na bela e tranqüila cidade de Lausanne, no condado de Vaux, Suíça.

    Como sempre, cheio de muitas coisas pra fazer e carregando uma lista ainda muito maior de coisas atrasadas por terminar, esse típico nova-iorquino, que muitos consideram o maior especialista do mundo em neurobiologia da gustação, já atendeu ao telefone com sua habitual impaciência.

    - O que você quer de mim a essa hora da manhã?

    Nascido e criado no ilustre bairro ítalo-judaico de Washington Heights, em Uptown Manhattan, Nova York, Dr. Simon nunca se habituou a perder tempo com mentes incautas, perdidas em devaneios intelectuais dúbios.

    - Sid, eu tenho um projeto imperdível para o maior especialista em gustação de Lausanne.
    Claramente, minha única esperança era capturar a atenção do homem alimentando o seu já gigantesco ego.

    - Qual idéia maluca você teve hoje? Eu estou ocupado demais para mais um projeto Nicolelis.

    Evidentemente, a missão seria mais difícil do que eu imaginara.

    - Sid, eu decidi que só existe uma forma de fechar a semana suíça do NeuroLog. Como eu prometi a meus leitores descrever a neurociência feita em cada país que vou visitar nos próximos dois meses, só há um assunto que cumpre essa promessa aqui na Suíça.

    - Qual? Eu não tenho tempo pra isso. Eu sou um cientista sério e muito ocupado. O que você quer de mim?

    - Tudo que você sabe sobre a Neurobiologia do Chocolate!

    - Você tá gozando da minha cara? O que eu fiz de mal pra você? Por que você está me torturando às 8 da manhã?

    - Não é tortura, não. Você vai ficar famoso em todo o Brasil, possivelmente em todo o mundo. Depois dessa coluna, todos vão querer ler os seus trabalhos. Especialmente aqueles nos quais ninguém prestou a mínima atenção até hoje.

    - Bom, aí é outra conversa. Quando a gente começa?

    Menos de uma hora depois, lá estávamos nós, lado a lado, trabalhando no pequeno escritório que compartilhamos no segundo andar do Instituto do Cérebro e da Mente da Escola Politécnica Federal de Lausanne. Repetindo a nossa conhecida rotina, que nos últimos 12 anos de colaboração na Universidade Duke resultou em uma série infindável de projetos e trabalhos científicos, sem falar de inesquecíveis e quase sempre hilárias conversas sobre o mundo, ciência, filosofia e a essência da vida, nós dois rapidamente coletamos todos os achados mais atuais sobre os mecanismos neurais que explicam a devoção quase que irracional do cérebro humano pelo chocolate.

    Se você algum dia se sentiu verdadeiramente culpado pela sua completa dependência pelo chocolate, hoje é o seu dia de se livrar, se não do vício, pelo menos de boa parte da sua culpa. Na verdade, essa dependência de quase todos nós pode ser explicada pelo simples fato de que poucos alimentos contêm tantos compostos psicoativos como o chocolate. Sendo assim, não é surpresa alguma que o consumo de chocolate seja tão disseminado, tão prazeroso e, em alguns casos, tão compulsivo por todo o mundo.

    Fabricado a partir das sementes da planta tropical Theobroma cacao, o chocolate conhecido por todos nós deriva de uma receita de preparação da pasta de cacau desenvolvida em 1879 pelo chef suíço Rodolphe Lindt.

    Antes da sua introdução na Europa, porém, as sementes de cacau e seus derivados desempenhavam funções tão distintas como fundamentais entre os olmecas, maias e astecas, que estavam entre as principais civilizações da América Central antes da chegada dos europeus.

    Mais de cem receitas medicinais tradicionais dessas culturas utilizavam a pasta de cacau ou o chocolate como remédio primário para o tratamento das mais diversas moléstias, incluindo a fadiga crônica, falta de ar e distúrbios da digestão. A pasta de cacau também servia como um veículo para ingestão de compostos medicinais de gosto muito amargo. Curiosamente, sementes de cacau também serviam de unidade monetária entre algumas dessas culturas pré-colombianas.


    Logo depois da sua introdução na culinária do Velho Continente, o chocolate virou a coqueluche das cortes européias, por uma variedade de razões. Conta a lenda, por exemplo, que o grande conquistador Giacomo Casanova consumia uma secreta preparação a base de chocolate antes de iniciar uma de suas inesquecíveis conquistas amorosas. Supostamente, Casanova acreditava na lenda asteca que conferia à pasta de cacau efeitos afrodisíacos. Verdade ou não, aparentemente a lenda funcionou bem para ele.

    Hoje é sabido que o consumo abundante, indiscriminado e quase doentio de chocolate provavelmente se deve a uma série de substâncias presentes nesse “manjar dos deuses”, que ativam diretamente os centros de prazer do cérebro. Por exemplo, um composto chamado anandamida, encontrado em pequenas quantidades no chocolate, é conhecido como um canabinóide endógeno, ou seja, um composto semelhante ao encontrado nas plantas do gênero Cannabis (ou maconha) que atua em receptores específicos de células nervosas. Tanto a sua presença direta quanto a presença de outros compostos no chocolate que impedem a metabolização de anadamida seriam responsáveis pela sensação de bem-estar e prazer experimentada por todo nós, consumidores inveterados de pasta de cacau.

    Chocolate também contém triptofano, um aminoácido essencial envolvido na síntese de serotonina. O aumento desse neurotransmissor poderia contribuir para uma redução no nível de ansiedade experimentada após a ingestão de chocolate.

    O consumo de chocolate também aumenta a produção de opióides fabricados pelo cérebro. Essas moléculas, semelhantes àquelas encontradas na morfina, são responsáveis pelo aumento no limiar de dor dos consumidores de chocolate. Assim, quanto mais chocolate, mais prazer e menos dor.

    Como não podia deixar de ser, um outro composto encontrado no chocolate nosso de cada dia (a feniletilamina) é responsável pela liberação de dopamina estocada em neurônios encontrados nos centros do prazer. Como no caso da neurobiologia da paixão, aqui também a dopamina deve contribuir para a sensação de prazer e euforia experimentada durante a ingestão de chocolate, particularmente o vendido na chocolateria da praça Saint François de Lausanne.

    Se essas não fossem razões suficientes para justificar o consumo de chocolate, vale a pena frisar que a pasta de cacau contém altos níveis de compostos antioxidantes, como polifenóis. Esse compostos contribuem para aumentar a longevidade de células cardíacas e cerebrais. Dessa forma, alguns especulam que a presença desses compostos pode explicar porque um estudo recente com mais de 8.000 alunos da Universidade Harvard revelou que aqueles que eram viciados em chocolate viveram mais do que os que se abstiveram de tal consumo.

    Devido a presença de vários tipos de compostos gordurosos, como triglicérides, ácido palmítico, esteárico e oléico, a maioria de nós experimenta uma sensação de grande prazer táctil quando um pedaço de chocolate derrete em nossas bocas.

    Assim, apesar do fato bem sabido de que consumo de chocolate nos faz adquirir alguns quilos a mais, o prazer que o nosso cérebro experimenta ao ser banhado por todos esses compostos quase sempre nos absolve do pecado da gula. Pelo menos até a próxima vez em que nos defrontamos com um espelho!

    - E aí, Sid, você se sente culpado comendo chocolate?

    - Claro, sempre. E você, Miguel, se sente culpado?

    - Toda vez.

    Tendo proferido o veredicto da nossa culpa indesculpável com toda a nossa convicção, nós fizemos a única coisa digna a ser feita nesse momento da verdade.

    Abrimos um novo pacote de chocolate suíço e dividimos a barra ao meio.

    Metade pra cada um!

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