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A Neurobiologia da Paixão
Dado o crescente interesse do público, informações sobre os avanços da neurociência moderna deixaram de ser relatados exclusivamente em revistas especializadas ou de divulgação científica e passaram a ocupar novos espaços na mídia.
Dentro dessa nova realidade, o fato de uma tradicional revista, como a National Geographic, incluir em uma edição recente um longo e muito bem escrito artigo sobre novas descobertas da neurociência poderia até que passar desapercebido.
Poderia, mas não passou.
A razão fundamental para a surpresa geral foi o tópico escolhido: a Neurobiologia da Paixão.
O artigo original, cujo título em português é: “A Reação Química do Amor” (“Love, the Chemical Reaction”, por Lauren Slater, National Geographic, fevereiro 2006, páginas 34-49), pode ser encontrado no endereço www.ngm.com/0602.
Ao longo do seu excelente relato, recheado de bom humor e estórias pitorescas, Lauren Slater sumariza uma série de pesquisas recentes que demonstram que a neurobiologia começa a poder explicar todo um espectro de emoções e comportamentos experimentados pelos que vivem ou já viveram uma grande paixão.
Por exemplo, nesse artigo encontramos os resultados de um estudo conduzido na Universidade Rutgers (Nova Jersey, EUA) pela antropóloga Helen Fisher, que usou a técnica de ressonânica magnética para obter imagens detalhadas da função dos cérebros de casais enamorados. Durante esses experimentos, cada pessoa olhava para duas fotografias distintas: uma de alguém desconhecido e uma outra mostrando a face da pessoa amada.
Subseqüente análise revelou que, quando a foto apresentada era a da pessoa amada, várias regiões específicas do cérebro, conhecidas como centros de prazer e recompensa, eram ativadas intensamente. Tais áreas cerebrais contém grandes quantidades de um neurotransmissor chamado dopamina. Neurotransmissores são móleculas que intermedeiam a transmissão de mensagens entre células cerebrais.
Vários estudos no passado demonstraram que o aumento de dopamina está relacionado com a geração de comportamentos como euforia, melhora do foco da atenção e a motivação para obter recompensas prazerosas. Assim, os achados da Dra. Fisher sugerem que altos níveis de dopamina, durante os estágios iniciais de uma paixão, contribuem para que os seres apaixonados ajam fora dos seus padrões habituais de comportamento.
De acordo com essa teoria, o abrir da cascata cerebral de dopamina faz com que recém-apaixonados sintam-se no paraíso, capazes de levitar, ascender às alturas, conquistar o mundo; tudo em função de realizar, a todo momento, qualquer proeza que possa demonstrar a devoção inequívoca pelo ente amado.
Quem já viveu uma paixão avassaladora sabe exatamente o que eu quero dizer.
Mas não é só de euforia e noites de insônia que vive um apaixonado.
Uma paixão também faz sofrer.
Até recentemente, porém, o chamado “morrer de amor” não era alvo de interesse da neurociência. Essa dor do amor mantinha-se como monopólio restrito daqueles que a viveram e relataram, em verso, música e prosa, ao longo de toda a nossa história.
Chora, peito
A busca pelas bases neurobiológicas da paixão, todavia, também inclui o entendimento das razões que fazem tantos padecerem com a “dor do amor”.
Curiosa por explicar o turbilhão de emoções experimentado por tantos apaixonados mundo afora, a Dra. Donatella Marazziti, professora de psiquiatria da Universidade de Pisa, na Itália, mediu a concentração de um outro importante neurotransmissor, a serotonina, em uma população de recém-apaixonados que confirmaram passar (e sofrer) grande parte dos seus dias (isso é, pelo menos 4 horas diárias!) “obcecados” pelo ente amado.
Para efeito de comparação, a pesquisadora também mediu níveis de serotonina sangüínea em duas outras populações: um grupo de pacientes diagnosticados como portadores de distúrbio obsessivo-compulsivo e um grupo de pacientes não-apaixonados e sem sinais de distúrbio psiquiátrico (o chamado grupo controle).
Surpreendentemente, essa comparação revelou que tanto os pacientes com distúrbios psiquiátricos (obsessão-compulsão) quanto os “apaixonados(as) obcecados por suas amadas(os)” apresentavam 40% menos serotonina circulante do que o observado no grupo controle. Não custa lembrar que baixos níveis de serotonina também ocorrem em pacientes sofrendo de depressão clínica.
Que ninguém mais ignore quão real é a dor do amor.
Ainda assim, apesar dos riscos envolvidos, poucas culturas abdicam do privilégio de desfrutar dessa explosão dopaminérgica, que em alguns casos pode levar a uma verdadeira estiagem serotoninérgica. De acordo com os antropólogos William Jankowiak e Edward Fisher, cujo trabalho é citado no artigo da National Geographic, intensa paixão amorosa existe em 147 das 166 culturas estudadas por ambos.
Claramente, por alguma razão maravilhosamente misteriosa, vale a pena se apaixonar. Mesmo porque, aparentemente, existe mais verdade biológica no mote “infinito enquanto dure” do que nós até agora imaginávamos.
Como a experiência cotidiana mostra, paixões, não importa quão intensas e viscerais, tendem a ser substituídas, ao longo do tempo, por sentimentos mais serenos que usualmente norteiam a convivência mútua de casais que vivem juntos há muitos anos.
Estudos citados por Lauren Slater indicam que o hormônio oxitocina, produzido pela glândula hipófise, pode estar envolvido na geração do sentimento de companheirismo e proximidade que mantém casais unidos, uma vez que a tempestade dopaminérgica da paixão se extingue. Sabe-se há muito tempo que a oxitocina é liberada quando mulheres amamentam seus filhos. Lauren Slater relata que novas evidências sugerem que o mesmo hormônio também é liberado quando nós abraçamos nossos cônjuges de longa data e nossos filhos.
Curiosamente, altos níveis de oxitocina também são encontrados em casais de pequenos roedores norte-americanos que exibem relacionamentos monogâmicos por toda a vida. Bloqueio químico da ação da oxitocina faz com esses roedores rompam seus hábitos monogâmicos e passem a ter múltiplos parceiros.
Apesar desses resultados tão interessantes, é óbvio que nós temos ainda muito o que aprender sobre a neurobiologia da paixão. Possivelmente, uma multidão de outros neurotransmissores e hormônios deve influenciar a iniciação e o término desse comportamento tão ubíquo da nossa espécie.
Seja como for, na próxima vez que você ligar repetidamente para o alvo da sua paixão e imediatamente ouvir, do outro lado da linha, uma voz exasperada a indagar se você não tem nada melhor pra fazer, lembre-se de usar o que você acabou de aprender aqui pra surpreender o seu amor. Ao invés de fazer o usual drama, mostre que você tem como justificar o seu comportamento obsessivo em bases puramente científicas.
Aprume-se e dispare o álibi perfeito com convicção.
Pois, graças aos avanços da neurociência, você agora vai poder dizer:
Querida(o),
a culpa não é minha.
Eu sou uma mera vítima.
Da alta dopamina
E da queda de serotonina.
Sem falar,
Da total ausência
De oxitocina