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    Tempestade Neural

    Freqüentemente, antes do começo de alguma palestra em alguma escola ou ambiente não-acadêmico, me perguntam como é ser neurocientista. Depois de muitos anos tentando achar uma resposta adequada a essa pergunta, eu cheguei a uma definição, que foi utilizada numa celebração transmitida em inglês por uma cadeia de rádio americana alguns anos atrás. Em português da Bela Vista, a tradução seria mais ou menos a seguinte:

    Ser neurocientista é ser uma espécie de astrônomo.

    Enquanto astrônomos observam o céu em busca de estrelas e galáxias, esperando um dia entender de onde vem a vastidão que nos cerca, neurocientistas devotam suas vidas investigando a atividade de enormes redes de células cerebrais que conjuntamente definem um microcosmos tão complexo e esplendoroso como o Universo que cobre as nossas cabeças.

    Basicamente, neurocientistas vasculham esse universo neural imbuídos do desejo de desvendar todos os incontáveis mistérios que definem a essência do que é ser o que somos. Pois é o trabalho incansável de milhões dessas células cerebrais que nos permite a cada instante expressar o inigualável repertório de comportamentos que definem a grande aventura de viver. Nossa habilidade de se mover graciosamente, de reconhecer, ver e tocar o mundo ao nosso redor, amar o próximo, lembrar o passado e planejar o futuro, todos esses preciosos talentos do nosso dia-a-dia emergem como subprodutos das tempestades elétricas produzidas por nossos circuitos neurais. Pensar nada mais é do que um relâmpago cerebral.

    Assim, neurocientistas espalhados por todo mundo navegam por esse universo interior mensurando os fachos elétricos que determinam todos os nossos sentimentos, todas as nossas emoções, todas as memórias, os sonhos, as frustrações; tudo que define uma estória de vida. A minha, a sua, a de todos que por aqui já estiveram e a de todos que ainda estão por vir.

    Neurocientistas também procuram nesse vasto universo as soluções que possam um dia aliviar a agonia de tantos que hoje sofrem com o árduo tributo imposto por uma enorme variedade de moléstias neurológicas e psiquiátricas.

    É essa paixão por viajar pelo desconhecido, mesclada com o desejo de, quem sabe um dia, mudar a vida de tantos, que fazem com que essa viagem quase sem fim ou destino valha a pena. Pois nada é mais inebriante, acreditem-me, do que tentar entender as razões que nos fazem todos ser tão iguais e ao mesmo tempo, tão únicos.

    A resposta para esse grande enigma, nós já sabemos, encontra-se oculta, a nossa espera, nas minúsculas faíscas elétricas que se espalham por nossas mentes todos os dias, da mesma forma que uma tempestade tropical varre o nosso céu de anil, numa tarde de verão.

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